Por NICOLAS ANDRADE
SÃO PAULO - Jornalista com passagem pelas rádios Inconfidência e Band News FM, TV Alterosa (afiliada do SBT em Minas), TV Record e atualmente repórter no portal de notícias UOL.
Dia desses, uma menina me
perguntou o que eu achava da ideia dela de fazer jornalismo na faculdade. Ela
está terminando o ensino médio e disse que sente uma vontade louca de trabalhar
na área, sempre que eu falo sobre o dia a dia da profissão no Twitter. Ora,
quem sou eu para falar alguma coisa? Não sou nenhum profissional renomado, não
tenho dinheiro, ̶n̶ã̶o̶ ̶t̶e̶n̶h̶o̶ ̶c̶a̶r̶r̶o̶,̶ ̶n̶ã̶o̶ ̶t̶e̶n̶h̶o̶ ̶t̶e̶t̶o̶ e̶ ̶s̶e̶ ̶f̶i̶c̶a̶r̶ ̶c̶o̶m̶i̶g̶o̶ ̶é̶ ̶p̶o̶r̶q̶u̶e̶ ̶g̶o̶s̶t̶a̶ ̶d̶o̶ ̶L̶e̶p̶o̶ ̶L̶e̶p̶o̶,
não
assino minhas matérias (o que eu acho uma sacanagem) e nem sou formado!
Mas naquele dia, como em outras poucas vezes, abri o meu coração para falar sobre o futuro. Antes, porém, fiz algumas perguntas. A primeira foi mesma que o Ricardo Boechat me fez quando fui tietá-lo em 2010, em Belo Horizonte: "você tem certeza disso?". Essa pergunta que parece óbvia, no entanto, é importantíssima. Afinal, por quê escolher justamente o Jornalismo, no meio de tantas outras profissões que são financeiramente mais atraentes?
Escolhi este curso porque não
sei fazer outra coisa da vida e nunca me vi trabalhando em outra área. Se
alguém me jogar num escritório para fazer serviços administrativos, por
exemplo, eu surtaria e em três dias estaria na rua. Dizem que a gente não se
torna jornalista, e sim, nasce. Então acho que nasci no caminho certo. Outros
falam até de predisposição astrológica: sou um geminiano (já viu, né? Fala,
fala, fala...). Lembro-me muito bem de quando aprendi a ler aos três anos de
idade, do telejornal que eu apresentava para os meus pais na sala de casa quando
tinha quatro anos, das entradas ao vivo e passagens que "gravava" no
espelho aos sete, do meu interesse voraz por jornais e revistas aos dez, do
jornal mural que fundei na escola aos onze e da rádio, também na escola, que
ajudei a botar no ar aos doze (e que funciona até hoje!). Valeu professor
Júnior, a culpa também é sua!
Sabe aquela dúvida sobre
vestibular? Nunca tive. Foi com muito gosto que mandei colocar
"JORNALISMO" na camiseta de formandos do ensino médio, assim mesmo em
caixa alta. Contudo, as coisas não são fáceis e da minha formatura, em 2008, à
tão sonhada faculdade, foram três anos de espera. Mas nunca desisti. Aí eu
entrei na faculdade, fui morar sozinho, servi cafezinho para pagar as contas,
tranquei o curso por falta de grana, voltei, tranquei de novo, pedi
financiamento, ganhei uma bolsa da Dilma, voltei, fazia dois estágios ao mesmo
tempo, tranquei outra vez, mudei de cidade, de faculdade, de vida, de casa, de
amor e não sei quando vou me formar, porque minha grade tá mais bagunçada que o
meu quarto. Mas e daí? É tudo experiência. Tô crescendo, ninguém disse que
seria fácil. O Marcelo uma vez brincou comigo falando dos investimentos que
fazemos nas nossas carreiras. Mas a gente não se importa nem um pouco, porque
gostamos do que fazemos. O Humberto, certa vez disse que é amor demais, passar
o que a gente passa para fazer o que a gente faz. Concordo com ele, a gente tem
que gostar muito para enfrentar os altos e baixos da profissão.
Entrar na faculdade é fácil,
difícil é se manter. Já no mercado, tudo é difícil. E não digo isso por
questões de empregabilidade, porque todo mundo sabe que #nãotáfácilpraninguém.
Estudar é difícil. Ler, ler e ler é difícil. Elaborar pautas, buscar
personagens, levar vários 'nãos', broncas, dar plantão, virar noites para
cumprir prazos, não ter tempo para fechar uma matéria, passar
fome/frio/calor/tomar banho de chuva e bala de borracha indo cobrir uma pauta
na rua, não ter grana pra nada, segurar a emoção e ser forte quando a profissão
pedir, não poder falar certas coisas por medo de retaliações... é um esforço
hecúleo. Já passei por isso tudo, mas não reclamo nem um pouquinho. Pelo
contrário, agradeço todos os dias, pois só eu sei o quanto eu sou feliz. Muitas
as pessoas e empresas que acreditaram no meu sonho e no meu potencial e me
deram as chances que abriram todas as portas até hoje. E não vou me esquecer
nunca!
Das lições que aprendi, a maior
é que não podemos ter vaidade nenhuma. Uma das coisas que eu falei com a
garota, é que nós não somos, nunca fomos e nunca seremos 'alguém'. Somos apenas
o cocô do mosquito do cocô do cavalo do figurante. Discrição, humildade e
respeito são valores necessários em qualquer ambiente de trabalho, mas
principalmente no Jornalismo. Nas redações da vida, tem muito pití de coleguinha
que vendeu o cérebro para comprar laquê para passar no topete. Vaidade não é
uma coisa pra jornalista, embora seja difícil engolí-la quando a gente acha que
faz o melhor text/VT do mundo. Mas é tudo um aprendizado, principalmente quando
a gente leva uns "sabões" de gente que já está há mais tempo no
mercado. No Jornalismo, ouvir é mais importante que falar. Quem quiser ser
artista de TV, acho legal procurar o curso de teatro.
"Deus é um cara gozador,
adora brincadeira. Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro. Mas achou
muito engraçado me botar cabreiro, na barriga da miséria me fez...
jornalista". Peço licença ao Chico para usar o verso de "Partido
Alto", sem compromisso com a rima, para ilustrar este texto. Acho que essa
música foi composta por um Chico jornalista fraco, feio, pele e osso, quase sem
recheio. Tipo eu. Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio, eu dou porrada
à 3x4 e nem me despenteio. Acho que nesse ramo as coisas são bem assim.
A todos os colegas e futuros
colegas, desejo um excelente Dia do Jornalista. Que a carreira de vocês seja
repleta de plantões no final de semana, muito café na redação e muita hora
extra não remunerada. Quem sabe um prêmio Esso? Não é impossível. Pelo menos, é
mais fácil que ganhar dinheiro. Mas você se importa? Eu não.
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