quarta-feira, 2 de abril de 2014

Coluna UVA PASSA

Por Heitor Moreira
Jornalista

777

Arrumei malas. Peguei um táxi. Aeroporto. Minha mãe me esperava no saguão para se despedir. Coisa de mãe. Só uma semana de viagem, mas ela estava lá. Chorou, me abraçou e esperou o avião decolar. Uma senhora chata roncava ao meu lado. Botei meu tapa olho, meus fones de ouvido e comecei a escutar Wild Horses, dos Rolling Stones. Por incrível que pareça: dormi.
Acordei com um grito. Um grito cheio de angústia. Pensei bem antes de abrir os olhos. Não abri. O avião fez uma manobra brusca para a esquerda. Mais gritos. Não tirei o tapa olho. Permaneci intacto, ouvindo meu álbum preferido. Se for uma turbulência vai passar. Se for pra morrer, que eu morra ouvindo uma boa música e de olhos fechados. Os gritos cessaram.
Um burburinho era notório. Reclamavam da manobra brusca, das luzes apagadas e da falta de comissárias. Eu só queria voltar a dormir. Dormi. Acordei meia hora depois. Um silêncio profundo predominava o interior do avião. Me arrependi por ter acordado. Tirei o tapa olho, os fones de ouvido. Olhei pra trás, pra frente. A maioria dormia.
Peguei meu livro. Comecei a ler, mas não conseguia me concentrar. Tinha alguma coisa errada. O sinal da cabine do comandante tocou. Ele ia falar alguma coisa. Mas não disse. Tocou mais uma vez. As luzes do corredor se acenderam. Quem dormia, acordou. Uma voz rouca disse o que não queríamos ouvir. ''Boa noite. Nosso destino foi alterado. ''Alterado? Mas eu tenho uma reunião de trabalho daqui cinco horas, na China.
Absurdo! Reclamei alto. Chamei comissária. Todo mundo começou a reclamar. Como assim eles mudam nosso destino, sem nenhuma explicação? Fiquei muito aborrecido. Muito mesmo. Um senhor da primeira fileira levantou-se e foi em direção à cabine do comandante. Um barulho ensurdecedor. Ele caiu no chão com a mão no peito. O sangue jorrava e os gritos aumentaram.
Dois homens com dois fuzis surgiram. Gritando, pediam silêncio. Eu estava em silêncio e mais uma vez me arrependi de ter acordado. Ou será que não acordei e  tudo era um pesadelo? Comecei a pensar na minha mãe e nos meus dois filhos. Pensei na festa de 10 anos de casados. Semana que vem. Seria minha surpresa para Natash. Quando começamos a namorar ela pediu de presente uma festa quando completássemos dez anos casados. Nem deve lembrar mais disso. Mas eu lembrei. Programei tudo.
Seria muito covarde se morresse ali, como aquele senhor. Sem ter me despedido direito das minhas crianças, sem ter dado um último beijo em Natash. E minha mãe? Ela só tem a mim. Meu pai morreu há quatro anos. Infartou durante espera para atendimento em um hospital. Tudo tão injusto: eu naquele vôo, minha mulher sozinha com meus filhos, minha mãe inconsolável, minha empresa sem seu dono, não pode! Tudo muito injusto! ''Calem a boca!'' Diziam com feições cheias de raiva e dor. Os homens armados disseram que estavam sequestrando o avião. Ninguém conseguia mais falar. Todos, como eu, ficamos perplexos. Enquanto eles falavam só era possível ouvir pessoas soluçando, chorando... eu segurei o meu choro. Não acreditava naquilo. Eles falaram por dez minutos. Não consegui ouvir muita coisa. Só pensava em como tudo seria se eu morresse.
Uma moça, aparentando ter 25 anos, levantou da poltrona e correu na direção contrária dos homens. Não entendi a atitude desesperada. Também caiu. Foi atingida por dois disparos. Todos estavam quietos. Tínhamos medo de morrer como os dois colegas de vôo. A vontade também era de levantar. Mas fiquei sentado. Fiquei sentando e quieto por Natash. Comecei a chorar como uma criança. Chorava como quem não quisesse acreditar em tudo aquilo.
Os homens desapareceram. Cinco minutos depois outro disparo, vindo da cabine. Será que mataram o comandante? Será que alguém se suicidou? Garganta seca. Falta de ar. Não sei bem explicar o que senti naquela hora. Botei meu tapa olho, meus fones de ouvido. Continuava a chorar. Estava pronto. Ouvimos outro disparo. O volume das pessoas chorando aumentava.
Dez minutos se passaram. O avião começou a cair. Ficamos na diagonal e descíamos com muita velocidade. Mesmo com a música no último volume, ouvi outro disparo. Agradeci. Agradeci a Deus por minhas filhas e por minha esposa. Por minha mãe... a sensação de saber que ia morrer a qualquer momento era muito estranha. Acabou. O avião explodiu. Morremos sem saber por qual motivo, com sonhos e cheios de saudade. 239 histórias. 239 famílias. Todos mortos. Injusto. Triste. Inconsolável. Ou será mesmo só um pesadelo?

Nenhum comentário:

Postar um comentário