segunda-feira, 31 de março de 2014

Cabo Frio no contexto comunista: relatos de quem viveu a Ditadura Militar

Imagem mostra manifestações na época do
Golpe no Rio de Janeiro . Foto: Divulgação
Desde a Revolta da Chibata, os castigos físicos foram abolidos na instituição. Porém, em 1964, o golpe militar de cunho anti-comunista endureceu o governo e tornou legais as práticas de censura e tortura. O golpe de 64 aconteceu devido à posse de João Goulart – o Jango, como era conhecido -, por tentar aplicar uma política de esquerda e ser considerado uma ameaça comunista.  O ápice se deu quando Leonel Brizola e João Goulart fizeram um discurso na Central do Brasil, Rio de Janeiro, no dia 13 de março, declarando as reformas de base, lideradas pela reforma agrária. Depois, oposicionistas se organizaram e promoveram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, movimento de base religiosa no combate ao comunismo. O golpe impedia tentativas de implantação de uma política comunista no Brasil e fez com que perdurasse a ditadura militar no país até 1985.


Cabo Frio, há décadas atrás, já era conhecida por ser um local de sindicalismo muito forte, existindo, assim, uma relação muito grande dos socialistas da cidade com os partidos de esquerda do Rio de Janeiro. Esses políticos comunistas faziam muitas palestras na cidade do interior do Estado, muitas delas nas casas de políticos locais. Alair Corrêa, eleito inúmeras vezes prefeito em Cabo Frio, tinha cerca de 10 anos na época do golpe, entregava o jornal comunista "A voz do Operário" na região e acompanha a luta do pai por um país democrático, longe de atos autoritários. Alair comenta como aconteciam essas reuniões políticas por Cabo Frio e de como a cidade entrou na rota de refúgio para os censurados da capital do Estado.

Alair Corrêa relembra os tempos de ditadura em Cabo
Frio . Foto: Divulgação
"Cabo Frio era um local onde o sindicalismo era muito forte, então existia uma relação muito grande dos socialistas da cidade com os do Rio de Janeiro. Eles faziam muitas palestras aqui, na minha casa houve muitas palestras, então eles se acostumaram, a nos momentos de pressão, das tentativas de prisão e até mesmo prisões vir para Cabo Frio, eram acolhidos nas casas dos cabofrienses. Assim, Cabo Frio se tornou um caminho de fuga para esses socialistas e comunistas", conta Alair.

A pressão do golpe era forte em Cabo Frio. Houve muitos protestos espalhados pela cidade, além da existência de sindicatos que proporcionavam força para as manifestações da população trabalhista. Alair Correa presenciou vários desses momentos na cidade.

"Havia protestos, manifestações, houve a caminhada pelo petróleo há 55 anos atrás, a caminhada “Queremos luz”, que eram os trabalhadores com tochas acesas, porque não havia luz na cidade, chegando depois os geradores. Houve invasão da delegacia, tacaram fogo lá, tiraram presos políticos da delegacia. Eu presenciei isso duas vezes, quando foi levado para a delegacia um policial que matou dois trabalhadores comunistas, que era onde fica o Corpo de Bombeiros hoje em dia. Cercaram a delegacia dos dois lados, muitos tiros e fogo. E tudo isso em razão do forte sindicalismo e comunismo da cidade. Havia o Sindicato dos Estivadores, dos Arrumadores, depois o Sindicato da Álcalis, dos Pescadores, dos Trabalhadores da Construção Civil; e a resistência mesmo era por parte dos Sindicatos dos Arrumadores e dos Estivadores" relembra o atual prefeito de Cabo Frio.

Muito se especula pela existência de sessões de tortura na Base Naval de São Pedro D'Aldeia, cidade vizinha a Cabo Frio. Militares antigos negam essa teoria. Fato é que o pai de Alair era político de esquerda, preso três vezes e torturado na capital. O prefeito explica que, na Base Naval de São Pedro D'Aldeia, somente ocorriam prisões.

"Não, não houve tortura aqui. Tortura era no Rio de Janeiro, para onde eram levados os comunistas e socialistas. Uma maneira de tortura muito comum na época era com a ponta de bambu bem afiado nas unhas. Falo com propriedade porque meu pai foi preso três vezes, e a tentativa de arrancar dele nomes de comunistas e socialistas era na base da pressão.  Todos da Região dos Lagos foram presos na Base Naval de Cabo Frio e levados para Caio Martins, em Niterói, nenhuma tortura na Base de São Pedro, apenas prisões", concluiu.

Por Michelle Mattos e Alessandra da Cruz :: UVA PASSA

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